Sensação de esgotamento

Sensação de esgotamento

Caracterizada pela falta de energia para exercer as atividades diárias, a fadiga é decorrente de causas diversas e pode comprometer a qualidade de vida do indivíduo se não for investigada e tratada

 

Um cansaço generalizado, extremo e desproporcional aos esforços realizados no dia e que pode vir acompanhado de dores musculares inexplicáveis. Uma falta de energia para realizar coisas simples. Exaustão. Dessa forma pode-se definir o que é a sensação de fadiga, também conhecida como astenia.
Os sintomas vão além do que já foi relatado e ainda cabe nessa lista incluir outros, como cansaço intelectual, falha de memória, baixo estado de ânimo, ansiedade, dores de cabeça, cãibras, depressão ou déficit de concentração, exaustão extrema que dura mais de 24 horas após exercício físico ou mental.
“Costuma-se chamar de fadiga o resultado das mudanças temporárias em um organismo decorrentes de sua exaustão por esforço ou por repetição. No entanto, esse sintoma traz consigo um nível mais alto de complexidade, não ligada a um órgão, mas ao organismo integralmente”, explica o clínico geral do Hospital Anchieta, Dr. Daniel Boczar.
Segundo ele, problemas, como a falta de sono, má alimentação e nutrição, infecções virais, doenças oncológicas, a Aids, a obesidade, a anemia, o alcoolismo e o abuso de drogas são os mais propensos causadores da fadiga. Ainda de acordo com o médico, estima-se que 9% das pessoas sentem fadiga por mais de seis meses alguma vez na vida e é mais comum em pessoas entre 40 e 50 anos de idade.
“A fadiga é mais frequente em mulheres (devido à sobrecarga de funções, tanto profissionais como familiares) do que em homens. Além disso, metade dos pacientes com o problema tem uma causa psicológica. Pacientes com história prévia de ansiedade ou depressão têm uma probabilidade maior de permanecer com fadiga”, relata o Dr. Boczar.
A fadiga não é uma doença propriamente dita e, sim, um sintoma de algum problema preexistente. Normalmente, as pessoas acham que a fadiga está relacionada somente ao esforço físico. É a forma mais comum devido à grande frequência de trabalhadores que exercem atividade física em excesso.
Mas essa é uma crença errônea, explica o clínico geral do Hospital iFor, da Rede D’Or São Luiz, Dr. Edson Meime Jibrim. “A fadiga, quando se torna persistente, pode ser causa de alguma doença de base. Basicamente a maioria das doenças pode causar estado de fadiga, entre elas tumores, anemia crônica, doenças reumatológicas, cardiológicas e respiratórias, déficit de imunidade, desnutrição, desidratação e inúmeras outras”, diz.
Ele acrescenta ainda que alguns grupos de pessoas têm maior probabilidade de serem acometidos pela fadiga, como indivíduos ou trabalhadores submetidos a regime excessivo de trabalho, pessoas da terceira idade pela fragilidade física e mental, indivíduos cuja atividade exija esforço intelectual importante, pessoas com doença crônica e outros.
O estilo de vida nas grandes cidades é um dos vilões que podem lançar o individuo rumo a uma situação de fadiga, seja ela física, mental ou emocional. A sobrecarga de trabalho, as longas distâncias a ser percorridas durante o dia, agravadas pelo trânsito, o medo da violência, as preocupações com o posicionamento no trabalho, o medo da instabilidade econômica, poucas horas de sono e noites mal dormidas, a má alimentação, tudo isto pode desencadear as situações de fadiga.
“A falta de tempo para cuidar da saúde, de si mesmo e da sua família também são fatores associados”, diz a endocrinologista do Hospital Santa Cruz, Dra. Lilian Kanda.

QUANDO A MENTE CANSA

A fadiga mental, intelectual ou emocional pode ser tão incapacitante quanto a física. A exposição rotineira a situações de estresse levam ao esgotamento, prejudicando a capacidade de raciocínio, concentração, memória, enfim, qualquer atividade intelectual.
A psicóloga Lizandra Arita reforça que a fadiga é um fenômeno subjetivo, ou seja, ninguém a sente do mesmo jeito, assim como a intensidade pode variar de pessoa para pessoa.
Segundo ela, os sintomas da fadiga emocional são em geral: falta de motivação e desinteresse pela vida; falta de energia; sentimento de não pertencimento (quando a pessoa não se identifica com nada, não gosta de nada, sente-se por fora de tudo); baixa tolerância ao estresse; dificuldade de concentração ou de manter a atenção; dificuldade em encontrar a soluçáo para os problemas; entre outros.
“O estresse do dia a dia e a necessidade de fazer diversas coisas ao mesmo tempo podem fazer a fadiga perturbar a rotina, o que torna difícil até mesmo realizar atividades corriqueiras”, comenta.
“A alta exigência de performance, a quantidade exagerada de afazeres, a necessidade de estar sempre desempenhando algo, a falta de personalidade nas relações, a necessidade de aprovação das pessoas. Tudo isso gera um alto nível de adrenalina, que sobrecarrega o emocional, gerando um superfuncionamento mental e físico. Isso faz com que a fadiga apareça”, completa.
Apesar da existência dos grupos de risco, a psicóloga afirma que, atualmente, todas as pessoas podem desenvolver fadiga em algum momento de suas vidas, principalmente aquelas cujo nível de exigência pessoal é elevado.
“Talvez os mais exigentes, pessoas que se cobram demais, que querem fazer muita coisa para agradar aos outros. Pode ser que esses perfis se sobrecarreguem mais emocionalmente e fiquem mais fadigados”, comenta.

EFEITOS NO CORPO

A fadiga muscular pode ser traduzida em um vasto leque de situações. As causas da fadiga muscular são o excesso de atividade para um determinado nível de condicionamento ou alguma disposição clínica que favoreça essa situação, de forma aguda ou crônica, diz o ortopedista e coordenador do Núcleo de Medicina do Exercício e do Esporte do Hospital Sírio-Libanês, Dr. Arnaldo J. Hernandez.
“Em fenômenos biológicos, as coisas não são pretas ou brancas e sempre existe uma série de situações intermediárias na gênese de um problema. Além disso, muitos dos fenômenos ligados à fadiga muscular ainda são desconhecidos ou pouco compreendidos”, comenta.
De acordo com o ortopedista, basicamente a fadiga muscular é a incapacidade, parcial ou total, do músculo realizar sua contração de forma eficiente para produzir a força ou o desempenho desejado, dentro do limite habitual para aquele indivíduo.
“A fadiga pode ser localizada, quando acomete um determinado grupo muscular, ou generalizada, quando acomete vários grupos ou até mesmo o corpo como um todo. Os sintomas, além da percepção da limitação para realizar a tarefa desejada, podem ser falta de fôlego, dor tipo queimação (ardor), sensação de contratura muscular, taquicardia, entre outros”, explica.
A fadiga muscular se manifesta por meio de dor, desconforto muscular associado a um declínio no desempenho físico ou esportivo. Assim, o indivíduo não consegue manter a tarefa ou o exercício muscular no mesmo patamar que iniciou.
“De uma forma geral, pessoas com condicionamento físico inadequado e que se submetem a treinamento intenso, ou mesmo indivíduos treinados, mas que muitas vezes excedem na carga e intensidade, podem sofrer com esse tipo de fadiga”, comenta o ortopedista do esporte e membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia – Regional São Paulo (SBOT-SP), Dr. Sérgio Piedade.
Segundo ele, realizar atividade muscular num patamar muito superior ao condicionamento pode predispor a ocorrência da fadiga muscular, ao mesmo tempo em que expõe o indivíduo a maior risco de lesões musculoesqueléticas.
A fadiga muscular também pode acometer pessoas portadoras de doenças pulmonares, cardíacas, renais, da tireóide, anemia, em idosos e sedentários. “Isso porque essas pessoas apresentam fatores que limitam a contração muscular, como diminuição de nutrientes necessários para um bom desempenho muscular, diminuição de oxigenação e células vermelhas no sangue, alterações metabólicas, entre outros”, diz a fisioterapeuta do Hospital Anchieta, Maria Isabel Siqueira.
Ela ainda conta que a fadiga muscular pode indicar outros problemas de saúde, como diabetes, alergia a glúten, desidratação, fibromialgia, entre outras. “Pois essas doenças limitam a chegada dos nutrientes necessários para promover a contração muscular adequada e eficaz dos músculos”, diz.

ALIMENTAÇÃO E SUPLEMENTAÇÃO VITAMÍNICA

Uma boa maneira de evitar a fadiga é orientar os pacientes a distribuir as refeições saudáveis em várias vezes e em menor quantidade. Intercalar uma pequena refeição entre as principais refeições do dia (café da manhã, almoço, jantar) manterá a fome a distância e os níveis de energia ideais.
As recomendações são do médico especializado em gerenciamento de peso, hipertrofia e nutrologia, Dr. Caio Henrique Cavalcanti. Segundo ele, o café da manhã é a refeição mais importante do dia.
“Depois de uma boa noite de sono, o corpo precisa de um bom ‘combustível’ para começar a funcionar melhor durante o dia”, diz. Além disso, ele reforça que as pequenas refeições intercalares ajudam a evitar que se coma em grande quantidade nas principais refeições do dia, aquelas que levam mais tempo a ser digeridas, o que faz com que as pessoas se sintam mais cansadas, uma vez que o organismo gasta mais energia para digerir os alimentos.
“É por isso que nos sentimos mais cansados e sonolentos depois de uma refeição abundante. Sem contar com a rotina exaustiva das grandes cidades, que potencializam esse cansaço”, comenta.
Mas quando as mudanças aplicadas ao estilo de vida ou alimentação não são suficientes para reverter o quadro, a suplementação de vitaminas pode ser necessária.
“Ela é indicada caso a deficiência seja diagnosticada por exames em conjunto com avaliação do consumo alimentar do indivíduo. Pensando em fadiga muscular, o papel dos micronutrientes, como as vitaminas e os minerais, são fundamentais para o equilíbrio da recuperação após a atividade. Por exemplo, a vitamina C e as do complexo B ajudam na reposição de energia, evitando a fadiga muscular.
O ferro equilibra a oxigenação do sangue, contribuindo para a reposição de energia das células musculares, o que diminui os efeitos do cansaço muscular – a fadiga”, explica a nutricionista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Weruska Barrios.
A suplementação vitamínica pode ser feita de diversas formas. “Caso a escolha seja sintética, poderá ser por meio de uma fórmula manipulada, na qual a dosagem e os tipos de vitaminas são manejados de forma personalizada.
Além disso, temos à disposição no mercado as versões gerais, com quantidade-padrão de nutrientes. É importante ressaltar a importância da ingestão equilibrada de alimentos que forneçam a quantidade diária de vitaminas e minerais para cada indivíduo”, esclarece.

 

Por Adriana Bruno

Reportagem publicada no Guia da Farmácia de Fevereiro de 2018